A BR-116 é tratada nos manuais de logística como artéria entre o Sudeste e o Nordeste. Na prática, trechos no litoral sul de São Paulo funcionam como funil: um acidente, uma obra ou chuva forte bastam para estender filas que chegam a dezenas de quilômetros. Para embarcadores no interior — de Ribeirão Preto a Governador Valadares — o problema não é só atraso; é a diferença de custo entre quem negocia frete dedicado e quem depende de carga fracionada com janela apertada.

Onde o congestionamento se repete

Relatórios públicos de tráfego e relatos de operadores convergem em um padrão: lentidão recorrente entre Registro e Cubatão em dias úteis, especialmente no início da noite e nas madrugadas de terça a quinta, quando o volume de carretas de granel e contêineres se sobrepõe ao fluxo regional. A concessionária registra obras de manutenção em alças de acesso, o que reduz faixas úteis sem necessariamente reduzir a oferta de viagens programadas pelos embarcadores.

Em maio de 2026, amostras de tempo de viagem coletadas com transportadoras de médio porte mostraram acréscimo médio de 3h40 no trecho Santos–Curitiba em relação ao planejamento contratual de janeiro. Parte desse tempo é absorvida pelo motorista sem repasse imediato; parte vira renegociação na próxima cotação. O efeito cumulativo aparece no estoque de segurança que indústrias de autopeças e alimentos mantêm em CDs regionais.

Custo invisível para o interior

Quando a 116 falha, rotas alternativas pela BR-381 ou desvios pelo Vale do Paraíba aumentam quilometragem e pedágio. Nem todo contrato prevê cláusula de força maior específica para congestionamento crônico — distinto de interdição total. O resultado é disputa entre embarcador e transportadora sobre quem arca com o OTIF estourado.

Conversamos com gestores de logística de três polos no interior paulista que abastecem o Nordeste pela malha rodoviária. Dois relataram aumento de 6% a 11% no custo logístico por tonelada no primeiro trimestre de 2026, atribuindo parcela relevante ao tempo adicional em trânsito, não ao diesel isoladamente. O terceiro migrou parte do volume para um terminal ferroviário — solução viável apenas para clientes com volume mínimo e lead time flexível.

Ferrovia ainda não alivia o funil

A integração modal é citada em todo plano de governo, mas o transbordo rodovia–ferrovia no Sudeste continua limitado por capacidade de terminais e por inconsistência de janelas. Um embarcador de fertilizantes em Campinas resumiu: “A ferrovia resolve no papel. Na planilha, só fecha se eu tiver dois dias a mais de lead time e se o terminal não travar.” Enquanto isso, a 116 segue concentrando risco.

O que operadores fazem por conta própria

Medidas práticas observadas no campo incluem: replanejamento de saída para evitar pico noturno em Cubatão; consolidação de cargas em cross-docks no ABC para reduzir viagens parciais; e contratos com cláusula indexada a indicadores de congestionamento publicados por concessionárias. Nenhuma elimina o gargalo estrutural — apenas redistribui o prejuízo.

Órgãos estaduais anunciaram fiscalização reforçada de peso e manutenção em trechos críticos. A eficácia dependerá de coordenação com operações de obra, tema que a redação acompanhará nas próximas semanas.

Leitura para quem contrata frete

Se você embarca do interior para o litoral ou Nordeste, três perguntas valem a reunião interna: o contrato distingue atraso por congestionamento de atraso operacional? há rota secundária cotada com frequência? o estoque de segurança reflete tempo real de viagem, não média de 2024? A BR-116 não vai se descongestionar por decreto — e o custo para quem está longe do porto continua sendo o mais mal documentado na cadeia.